*CHARADA* - A locadora de filmes de São Paulo que sobreviveu ao streaming virou refúgio cultural

 


Em 1995, quando estava alugando o espaço para realizar o sonho de montar uma videolocadora, o ex-gerente administrativo Gilberto Petruche tinha 20 concorrentes num raio de 1 km no bairro do Sapopemba, na zona leste de São Paulo. Ao dizer para o dono do imóvel que trabalharia diferente, apostando em filmes fora do circuito comercial, ouviu do proprietário, a quem trata com muito carinho, a projeção de que fecharia em três meses. Em 2025, a ‘Charada’ completou 30 anos de existência, como uma das quatro videolocadoras ainda ativas na cidade de São Paulo, a única localizada na periferia.

Nessas três décadas, passou do VHS para a explosão do DVD, chegou a alugar 890 filmes num único dia, atravessou o advento do streaming, uma pandemia e revela que, hoje, a locação não paga nem a luz e a água do espaço que usa. Durante as três horas em que a reportagem passou na locadora, para um bate-papo, um café e uma visita a um espaço carregado por nostalgia, a entrevista foi interrompida algumas poucas vezes — um garoto do bairro encantado com o lugar, um amigo que passou para conversar, um grupo de rapazes que já se apresentou por lá, uma mulher que trouxe a doação de um toca-discos e outra que procurava uma mídia de uma festa de casamento que ela havia deixado para digitalizar há, pelo menos, dois anos. Ou seja, não entrou, no breve período, nenhum pagamento, seja por dinheiro, cartão ou Pix, de venda ou aluguel.


Mas, engana-se quem pensa que a situação leva um ar de melancolia à loja de pé direito alto — que faz Gilberto brincar que está no ‘vão do MASP de Sapopemba’ —, totalmente iluminada, com prateleiras limpas e organizadas e um estiloso piso artesanalmente feito com vinis quebrados que ele foi recebendo ao longo dos anos. “Sou um acumulador de cultura”, diz, ao celebrar o local que hoje também abriga shows musicais, alguns cursos e pequenas mostras de cinema. É nesse espaço, atrás do balcão, que agora Gilberto se realiza de uma forma que não conseguia quando alugava centenas e centenas de filmes por dia e se sentia dentro de Tempos Modernos, de Chaplin. Adepto do cinema nacional e fã incondicional de Glauber Rocha, ele tem o tempo que sempre quis para falar, debater e indicar filmes.

As indicações, aliás, saíram de trás do balcão e ganharam as redes sociais, por meio de um perfil chamado ‘Rinha de Cinéfilo’, no qual Gilberto já gravou diversas vezes para revelar suas preferências em uma espécie de mata-mata cinematográfico. Os vídeos lhe renderam visibilidade, admiradores e, é claro, algum hate. Ele só perdeu a paciência mesmo quando um comentário acusava o estabelecimento de fazer lavagem de dinheiro. Confessa que chegou a escrever os maiores impropérios para o agressor, mas pensou bem, apagou tudo e preferiu uma resposta mais polida fazendo um convite a conhecer a ‘Charada’.




Hater à parte, o sucesso virtual fez com que pessoas até de outros estados visitassem a videolocadora. Nada que comova muito a esposa de Gilberto, que não entra na ‘Charada’ há dez anos. Ao voltar para casa e contar a ela que um fã viera do Espírito Santo para conhecê-lo, ouviu: “Comprou o quê?”. Mesmo com a resistência em casa, ele revela convicto que nunca pensou em fechar mesmo nos tempos mais difíceis. Tanta convicção não se vê quando é perguntado sobre o futuro e o que será do seu acervo de mais de 20 mil mídias físicas. Ele só sabe que não quer abandoná-las: “São meus filhos”.













Fonte :https://noticias.r7.com/entrevista/nunca-pensei-em-fechar-aqui-e-uma-resistencia-diz-dono-da-ultima-videolocadora-periferica-de-sao-10092025/



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